Em 10 anos, Espírito Santo já registrou mais de 20 mil desaparecimentos de pessoas

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A mãe não desiste de buscar pelo filho, mas esbarra em um problema levantado pelo Conselho Estadual de Direitos Humanos: a falta de estrutura da polícia.

A última lembrança que Vânia tem de Alisson é de seu “até logo” poucos minutos antes de o jovem sair de casa com destino a um curso de poesia, que fazia na Ufes.

No entanto, a saída casual acabou se tornando um martírio quando soube que Alisson nunca chegou ao seu destino. “Quando deu 14h, a professora me ligou falando que ele não tinha ido”, lembra a mãe.

Vânia procurou por todos os cantos e tentou encontrá-lo através de imagens de câmeras, mas não conseguiu. Alisson é casado e pai de uma bebê de dois meses.

“Eu não acredito que ele está por aí, deixando a filha dele, a nossa família aflita. E com tantos compartilhamentos que a gente fez, tanto apelo, não é possível que ninguém tenha visto meu filho”, desespera-se Vânia.

A mãe já foi a polícia, registrou ocorrência, prestou depoimento, espalhou cartazes e até agora não tem nem pistas do filho. Alisson, até o momento, se transformou em estatística. Como mais de 600 casos de pessoas desaparecidas foram registrados em 2019, estima-se que por mês haja em média 52 desaparecimentos.

Dos 600 desaparecidos, 496 pessoas foram encontradas, sendo que 31 estavam mortas. Outras 100 continuam desaparecidas.

De acordo com a presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos, Verônica Bezerra, em 10 anos o Estado registrou 21.550 casos de desaparecimento de pessoas. Para ela, a polícia capixaba ainda não tem uma equipe especializada para investigar e amparar as famílias.

“É importante que a gente tenha essa pronta resposta do Estado adequada e sensível, a partir da ética do cuidado, de você olhar para aquela pessoa não como um número, mas como uma pessoa que está em um momento de sofrimento profundo e precisa, em um primeiro momento, ser acolhida, ser atendida e ser entendida”, diz Verônica.

Essa é justamente a situação da Vânia, que continua à espera de respostas. “Eu já passei todas informações que eu tinha para os investigadores da delegacia de desaparecidos, mas até agora nada foi feito, não tive nenhuma resposta”, lamenta ela.

No entanto, a Polícia Civil informou que na última sexta-feira (10) aconteceria mais uma diligência em busca de Alisson.

O índice de pessoas encontradas ano passado no Espírito Santo foi de 83%. Neste ano, até esta sexta, já foram registrados 27 casos de pessoas desaparecidas, das quais oito foram encontradas e uma morreu.

O delegado Arthur Borgoni falou também sobre as críticas feitas pelo Conselho de Direitos Humanos.

“O nosso dia-a-dia aqui no departamento de homicídios e também na delegacia de pessoas desaparecidas nos dá impressão de que o desespero de quem não sabe o que aconteceu com o familiar chega a ser maior do que a dor de quem tem a certeza que perdeu um familiar. Então, os familiares nunca estarão satisfeitos enquanto seu ente querido não for encontrado”, analisa.

Contudo, Borgoni garante que os profissionais da delegacia de desaparecidos são capacitados. “Temos aqui profissionais que atendem com a maior atenção, o maior carinho, a maior disponibilidade possível. O nosso atendimento é bom, o que acontece é que enquanto nós não encontramos o ente querido o familiar sempre vai estar ansioso para que mais diligências sejam feitas”, justifica.